Trabalho e Vida são valores inseparáveis

 

15/05/2017
Por Fernando Alves - Rede Cidadã

Eu não sei pensar a vida separada do trabalho. Como se em algumas horas do dia eu vivesse, em outras horas eu trabalhasse. Afinal, quando estou trabalhando estou vivendo. Assim, também, viver exige muito trabalho. Não só o trabalho formal nas horas em que estamos num emprego ou numa atividade do próprio negócio, mas a vida exige o trabalho necessariamente envolvido para que todas as coisas aconteçam. Levantar da poltrona para pegar um simples copo de água na cozinha é um trabalho, fazer o almoço, para si mesmo e para a família, é um trabalho. Essa é uma razão suficiente para que as mulheres (ou homens) tenham reconhecida a jornada extra no trabalho doméstico, para além do trabalho formal numa empresa.

A separação entre vida e trabalho é um mero recurso didático, uma forma de falar sobre o dia a dia. Uma maneira de separar o tempo que estamos no emprego do tempo em que estamos fora dele. Essa separação é mais importante para definir a jornada de contrato de trabalho do que para organizar o nosso compromisso com o trabalho, ou ainda para delimitar a diferença entre jornada profissional e espaço privado. É sim uma demarcação de tempo importante, principalmente, porque muitos empregadores gostariam que seus funcionários nunca tivesse hora de parar o serviço na empresa. Porém, ter horário para encerrar o trabalho na empresa e sair de lá não separa o trabalho da vida.

Precisamos restaurar o sentido e o valor do trabalho na vida, principalmente para os jovens. Precisamos mostrar para os novos cidadãos jovens que o trabalho é um valor fundamental da vida, um valor que precisa ser tratado com muita atenção e cuidado. O mundo do trabalho corre o risco de perder o seu sentido e o seu valor como ocorreu com a educação.

Os adolescentes e a juventude, como de resto a própria sociedade, já jogou a educação na lata de lixo. Poucos ainda acreditam no valor da educação como fundamental para a vida, para a comunidade, para o desenvolvimento humano. A escola, o lugar por excelência para a prática da educação tornou-se espaço de repulsa da juventude. Os educadores perderam o sentido nobre da arte de educar, as escolas públicas desgastadas por um sistema de massificação, com salas superlotadas de alunos de baixa renda, trazendo os desdobramentos da pobreza material, social e cultural para dentro da sala de aula. Até a violência já invadiu as paredes da escola. No setor privado de  ensino,  a escola  é  um lugar de relacionamento,  de jogos,  até mesmo de diversão, um espaço para ocupar meia jornada do dia de adolescentes e jovens, enquanto sua família se ocupa exclusivamente com o mundo corporativo. Os  professores foram transformados em tomadores  de conta de alunos ou artistas para o entretenimento chamado por aula.

O trabalho está diante do mesmo risco de esvaziamento de sentido para os jovens. Para que serve o trabalho? Para obter uma quantidade de dinheiro no fim do mês. E para que serve esse dinheiro? Para pagar a conta do celular, comprar tênis ou roupa de marca. E algum dinheiro para beber nas baladas. Na escola, já esvaziada, o trabalho não é um tema. A relação fundadora e positiva entre trabalho e vida não existe mais para ninguém. Todos sofrem com o trabalho, os pobres porque ganham pouco, os ricos porque não têm tempo para viver, só para trabalhar. E assim, o trabalho se apresenta de modo ambíguo, ruim para todo mundo, menos para quem contrata os trabalhadores que pode ganhar mais dinheiro trabalhando menos. Essa falsa aparência gera mais um paradoxo negativo para o valor do trabalho. Além de ser uma inverdade, porque para se ganhar muito é preciso também muito trabalho. Empresário, ou para utilizar o jargão, capitalista que não trabalha duro perde o que tem.

O trabalho tem sido confundido com emprego, esse lugar onde tem quem manda e os que obedecem. De um lado quem tem poder do outro quem tem juízo e dependência servil. De novo, ruim para ambos, quem manda não encontra profissionais preparados, com níveis de autonomia e iniciativa empreendedora, capaz de contribuir com sua energia pessoal para a realização do negócio. E quem é servil não encontra incentivo para o desenvolvimento pessoal e profissional capaz de gerar autocomprometimento com o mundo corporativo. Estas relações de trabalho vão desinformando a juventude para a construção positiva do valor do trabalho. Ao contrário, estimulam o abandono de um emprego por uma mera diferença salarial, ou no primeiro conflito, não promovendo a visão de carreira profissional, onde um trabalho se esgota somente quando a curva da aprendizagem foi superada.

Claro que este é um quadro velho para muitas empresas modernas, especialmente para o setor de alta tecnologia, para os níveis de alta e média gerência, para as empresas de serviços qualificados onde contam os conhecimentos oriundos da formação universitária, por meio de profissionais, com domínio técnico e cultural mais estruturado. Nestas empresas os jovens encontram mais oportunidades de aprender e desenvolver. Isto deu origem a diversas teorias positivas do trabalho, como a chamada Geração Y, que aposta tanto no trabalho que não é qualquer trabalho capaz de reter esses novos talentos.

Não são destas empresas, nem destes jovens universitários, que estamos falando. Mas da massa social constituída por jovens que formam a grande massa trabalhadora de um país. Estamos  falando dos  alunos das escolas públicas, que são moradores de bairros, vilas e favelas do Brasil. Estamos falando de jovens filhos de trabalhadores, e daqueles cuja família já nem é a mesma que seus avós e pais tiveram quando crianças. Para este público, reserva-se o chão de fábrica, o primeiro emprego, as tarefas operacionais do mundo do trabalho. Funções que evidentemente deveriam ser mais compatíveis com o nível de formação desta juventude, não fosse a excessiva má formação escolar e o descrédito com o valor do trabalho para com a vida.

Eis mais um paradoxo, nem o mundo das tarefas simples permite um caminho de aprendizagem de valores básicos para se compreender a importância do trabalho no desenvolvimento do ser humano. Num pequeno livro  de  poucas páginas,  Engels  escreveu  sobre  o  papel  do  trabalho  na transformação do macaco em homem. A história está repleta de situações que demonstram como o trabalho e o uso de ferramentas para trabalhar foram fundamentais para gerar tecnologia, conhecimento, e consciência de ser, dotando o homem de um movimento de autoconstrução humana, um movimento civilizatório. A humanidade não chegou até aqui sem intenso trabalho, sem reconhecer a condição humana para o trabalho, e sem perceber que a extensão da consciência existencial se deve a toda ordem de criações e inovações decorrentes do trabalho. Vale dizer que a humanização do ser é uma tarefa para o próprio trabalho humano.

É interessante como mesmo na lidas de um processo estrito senso mental, reflexivo, adstrito exclusivamente ao reino do pensamento e das emoções, como o é a Psicanálise, encontramos a recomendação do Psicanalista ao seu cliente: “trabalhe mais neste tema, ou naquela emoção”. É verdadeiramente interessante que o termo trabalho seja convocado para que a pessoa elabore seus pensamentos, suas emoções e seus conflitos mais íntimos. Precisamos destacar a importância desta expressão e o sentido de que se dá ao trabalho profundo, muitas vezes exaustivo, da  investigação interior ao ser. Portanto, nós trabalhamos quando pensamos, quando ativamos e desativamos emoções ou quando desatamos os nós afetivos.

Dessa mesma forma, trabalha o poeta nos versos, o filósofo na construção de uma metáfora, o cientista na pesquisa, o pedreiro na parede, a costureira na máquina e o padeiro no pão. Cada um trabalha fazendo a sua coisa, muitas vezes essa coisa é o arranjo de algumas palavras outras vezes o arranjo de alguns tijolos. No poema de Vinícius de Moraes, O Operário em Construção, diz o poeta que o “operário faz a coisa e a coisa faz o operário”. Essa frase ou esse verso do poeta é uma luz para a compreensão do papel do trabalho na vida humana. Ela demonstra que quando nós trabalhamos e construímos uma coisa, ou uma palavra coisa, essa coisa construída, uma vez do lado de fora do ser, uma vez objeto ou sentimento, construído e acabado, volta para dentro do seu construtor e influi na construção do próprio ser humano. Toda construção para fora volta para dentro do ser.

Precisamos recuperar essa consciência de que todo trabalho se volta para dentro de nós mesmos, nos transforma em sujeitos históricos, nos permite ter consciência do talento que temos no fazer qualquer coisa e nos dá condição de acreditar na nossa capacidade de transformar o mundo. Pois é aqui que se encontra o valor do trabalho para a vida. Meu trabalho a serviço da vida e do universo. É aqui que a vida e o trabalho se reencontram e se fundem num só valor.